Impressão em Cores

Como foi visto no artigo anterior ,o surgimento da imprensa beneficiou imensamente o progresso científico e a divulgação do conhecimento, a partir da Europa. Nesta sessão vamos entender porque mais de duzentos anos depois de Gutenberg ainda haviam dificuldades para que as cores chegassem aos livros impressos.


Nos anos 1700 a côrte francesa e sua Academia Real de Pintura e Escultura ainda se recuperavam de longo debate artístico-filosófico.

A querela das cores1 consistiu de uma disputa entre aqueles que valorizavam o desenho com formas perfeitas e racionais – por forte influência do platonismo – e aqueles que entendiam o uso artístico das cores como a melhor direção para imitar a vida e a realidade da natureza.

A vitória dos coloristas apontou para a compreensão de que as artes não deveriam ser uma exclusividade de pessoas educadas nos valores aristocráticos e uma boa realização artística deveria ser capaz de impressionar qualquer pessoa em contato com a obra.

Ticiano Vecellio: privilégio da forma, imitação de um mundo ideal.
Peter Paul Rubens: privilégio da sensação, imitação da natureza

A ênfase nas cores começa a ser reconhecida pela Academia e contudo ainda não havia o conhecimento amplo e difundido sobre como obter certas cores a partir de uma gama limitada de pigmentos disponíveis. De fato, além de sensibilidade e das habilidades de desenho, grandes mestres da pintura eram reconhecidos por suas habilidades extraordinárias na mistura das cores pois ainda não se sabia com precisão com quantas cores se faziam uma outra cor.


Vermelho – Amarelo – Azul

A presença de cores nas reproduções impressas se limitava a uma ou duas cores – separadas – em cada obra. Com a tecnologia da época, era possível inserir uma letra capitular em vermelho para se destacar do texto em preto mas seria impossível imprimir uma ilustração colorida ou o retrato de uma pessoa. Nestes casos uma pessoa era contratada para ilustrar cada uma das cópias da publicação.

Foi graças ao engenho de um gravurista francês que a situação mudou. Em 1725 Jacob Le Blon publicou o livro Collorito detalhando suas descobertas sobre como se poderia obter qualquer tonalidade de cor a partir de apenas três cores.

Coloritto ou a Harmonia da Coloração é a Arte da Mistura de CORES, de modo a representar com naturalidade e em todos os graus de Luz e Sombra pintadas, a mesma MATERIALIDADE ou a Cor de qualquer outro objeto que for representado na verdadeira e pura Luz.

A pintura pode representar todos os objetos visíveis com três cores, Amarelo, Vermelho e Azul; pois todas as outras cores podem ser compostas por essas três que chamo de Primitivas. (…) E uma mistura dessas três cores originais faz um preto e todas as outras cores, como demonstrei com minha invenção de imprimir retratos e figuras com suas cores naturais.

Estou falando apenas das cores materiais ou aquelas utilizadas por pintores; por que uma mistura de todas as cores impalpáveis primitivas, que não podem ser sentidas, não irá produzir Preto mas o próprio contrário, Branco; como o grande Sir Isaac Newton demonstrou em seu Opticks. (Le Blon, 1725)

O valor do trabalho de Le Blon se deve à sua persistência de experimentar com o conhecimento disponível e se aventurar por um campo inesplorado. Ao registrar seus achados e descrever um método de mistura de cores deixou marcas para as Ciências tanto quanto para as Artes.

No campo da ilustração, suas descobertas atingiram parcialmente o objetivo de baratear a reprodutibilidade das gravuras coloridas. Afinal de contas, se era sabido que para chegar ao verde bastava misturar amarelo e azul, para obter um mesmo verde repetidas vezes o que contava mais era a sensibilidade para cores e experiência prática. Em outras palavras, apesar do método o trabalho era muito mais uma arte do que uma ciência exata.

Nas ciências, a descoberta do gravurista francês foi muito importante para a divulgação científica em anatomia e botânica.

Jacques-Fabien Gautier-Dagoty, 1746.
Jacques-Fabien Gautier-Dagoty, 1748.
Discípulo de Jacob C. Le Blon

Por último, e não menos importante, a concepção do Vermelho-Amarelo-Azul (RYB) como cores primitivas influenciou as próximas descobertas em fisiologia humana acerca da percepção em cores no olho humano – assunto do nosso próximo capítulo.


Referências Bibliogŕaficas:
1. Querela das coreshttps://fr.wikipedia.org/wiki/Querelle_du_coloris
2. Coloritto, or, The harmony of colouring in paintinghttps://www.library.si.edu/digital-library/book/colorittoharmon00lebl