Metafísica das Cores

Teorias sobre cores são elaboradas para sistematizar o entendimento das cores, estabelecer uma linguagem para descrevê-las e um sistema de notação capaz de diferenciar uma cor de outra com a maior precisão possível.

O interesse científico pelas cores vem desde a Antiguidade e evoluiu bastante junto com inúmeros avanços tecnológicos. Instrumentos de medição cada vez mais precisos, a fisiologia da percepção de luzes e cores no corpo humano, a onipresença de câmeras fotográficas e telas luminosas na vida contemporânea, são alguns dos fatores que tornam o conhecimento sobre as cores e seus efeitos ainda mais relevantes. Entretanto, no contexto das cores-luz, diversos modelos de conhecimento podem ser aplicados dependendo da finalidade de cada trabalho e também dos aparelhos disponíveis.

Em se tratando das cores-matéria – ou cores-pigmento – outros desafios são acrescentados ao conhecimento geral sobre as cores. Mesmo assim, queremos demonstrar em nossas publicações e também nas tintas guache TGA que entre a luz e a matéria o problema das cores é essencialmente o mesmo, desde que se tenha o material correto em mãos. Desta forma esperamos atender tanto artistas gráficos dos meios digitais quanto artistas trabalhando em suportes físicos.

Teorias Antigas

Aristóteles desenvolveu uma das primeiras teorias das cores conhecida descrevendo as cores como propriedade da divina luz solar. A variedade da cores se devia à interação entre a luminosidade (branco) e a escuridão (preto). O filósofo também foi um dos primeiros a experimentar com a mistura de cores-luz, sobrepondo um pedaço de vidro azul e outro amarelo, projetando a cor ver sobre a parede branca. Algumas de suas ideias sobre as cores continuaram em vigor até a era moderna.

Leone Battista Alberti foi um humanista italiano versado em diversas artes, arquitetura e matemática – legítimo representante do ideal uomo universale renascentista. Alberti foi o primeiro artista a conceber e publicar uma teoria sobre cores: Della Pintura (1435). De acordo com ele:

Através da mistura de cores infinitos matizes podem ser obtidas, contudo existem apenas quatro cores verdadeiras das quais um ou outro tipo de cor pode ser obtida.

Vermelho é a cor do fogo, azul é a cor do ar, verde a cor da água e cinza a da terra… branco e preto não são cores verdadeiras mas alterações de outras cores.

Cinquenta anos depois da publicação de Alberti, o gênio da artes Leonardo Da Vinci também deixou algumas anotações – com data de 1490 – acerca da percepção das cores e o modo de usá-las em trabalhos de arte.

Como se verá na próxima seção, o conhecimento das cores e seus usos segue dois caminhos distintos de desenvolvimento. Um é o da racionalidade empírica consagrada pela Revolução Científica no século XVI e outro que explora o uso das cores como um instrumento da linguagem artística.

Neste texto continuaremos a explorar o desenvolvimento científico, a fim de estabeler o fundamento capaz de dialogar com as Teorias Artísticas das Cores (em breve).

A Revolução Científica

Ao final do Renascentismo inicia-se um período que definiu a maneira e o objetivo de se buscar conhecimento. Se até então as artes e as ciências estavam ao serviço dos dogmas religiosos, agora o conhecimento deveria servir em primeiro lugar ao humano. Na frase a seguir, podemos entrever o nascimento do método científico.

A filosofia encontra-se escrita neste grande livro (o universo) que continuamente se abre perante nossos olhos, que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto. (Galileu Galilei)

A revolução do conhecimento foi de fato um divisor de águas na história da ciência. A química se separa da alquimia; a metafísica aristotélica dá lugar à física clássica; foram demonstradas distâncias entre planetas e o movimento da Terra ao redor do Sol. Foi também neste período que vimos surgir a imprensa, expandindo a divulgação científica e sobretudo trazendo confiabilidade às informações circulantes, menos sujeitas a erros e alterações dos livros copiados à mão.